quinta-feira, 13 de maio de 2010

Aos diabos o comunismo! (Max Stirner)

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“Ao declararem que só a livre atividade constitui a essência do homem, os comunistas precisam, como toda a mentalidade dos “dias úteis”, de um domingo, tal como toda a aspiração material precisa de um deus, de elevação e edificação, paralelamente ao seu “trabalho” destituído de espírito.

Quando o comunista vê em ti o ser humano, o irmão, esse é apenas o lado dominical do comunismo. Do ponto de vista do “dia útil”, ele não te vê como ser humano sem mais, mas antes como trabalhador humano, ou homem trabalhador. O primeiro ponto de vista denota o princípio liberal, no segundo esconde-se o iliberalismo. Se tu fosses um “preguiçoso”, ele não iria desconhecer o homem em ti, mas procuraria purificá-lo da preguiça, para te converter à crença de que o trabalho é “o destino e a vocação” de ser humano.”

Max Stirner

Nietzsche leu Max Stirner?

Existem muitas controvérsias acerca da hipótese de que Nietzsche tenha lido Max Stirner. Alguns posicionamentos acerca dessa hipótese serão explicitados em meu TCC (posterei essas posições aqui no blog).

No que diz respeito à minha opinião (e essa deve ser considerada como oriunda de uma perspectiva que não possui elementos históricos suficientes), pretendo ir sedimentando meu posicionamento com base nos escritos de Nietzsche. Alguns fragmentos corroboram a tese da leitura, outros não. Abaixo, um fragmento extraído do livro “Vontade de Potência”:

“Um homem virtuoso pertence a uma espécie inferior, já porque não é uma ‘pessoa’, porque o seu valor advém do fato de conformar-se a um esquema humano definitivamente estabelecido. Não tem valor por si mesmo: pode ser comparado, tem semelhantes, não deve ser o único...”

Antiguidade grega e seu papel na História (Max Stirner)

  • Para os antigos (pré-cristãos), o mundo era uma verdade. Uma verdade à cuja não-verdade lograram atingir.

    • O período de inversão do mundo como verdade ao mundo como não-verdade se dá dos sofistas até os céticos;
    • Os sofistas usaram o entendimento contra o mundo. O entendimento sofístico combatia as determinações sedimentadas pelo pensamento tradicional, calcado na physis (a esta, contrapõem o nomos);
    • Com Sócrates, a libertação passa a se dar não apenas através do entendimento, mas também pelo coração. Liberando-se apenas o entendimento, fica-se refém de um coração bruto, ainda determinado pelas contingências do mundo. Sócrates propõe uma educação para o coração e, assim, introduz a moral na filosofia;
      • Coração: família, laços de sangue, instinto ou senso estético, comunidade, pátria, etc;
    • Os demais pensadores antigos completam o trabalho de Sócrates. Esse período, conforme Stirner, vai até aos filósofos céticos;
    • Segundo Stirner, a obra dos antigos consiste em esvaziar o coração de todo conteúdo, para que este não bata por mais nada, pois primeiro o homem teve de se tornar frio e despreocupado (cultura cética) para, depois, poder se tornar espírito e passar a se relacionar somente com espíritos;
      • Neste sentido, os antigos trabalharam no sentido de apurar os sentidos contra o mundo, pois não podiam, ainda, ocupar-se exclusivamente do espírito, pois não eram ainda espirituais o suficiente. (segundo Stirner, os judeus, mesmo os de seu tempo, apresentariam ainda os traços daquela antiguidade pré-cristã. Stirner apresenta os judeus como "filhos precoces da antiguidade" e teriam permanecido, assim, incapazes de desprezar o mundo das coisas tal como o cristão) - Mais sobre os judeus na página 25.
    • O que os antigos buscaram especificamente foi o bem estar, a eudaimonia, o prazer em viver, o gozo da vida neste mundo e, para isto, empreenderam sua luta contra as contingencias cegas do plano terreno;

O que são espectros? (Max Stirner)

  • O ser supremo é o espectro que se esconde por detrás do mundo (é Deus, é a coisa-em-si); o trabalho do homem tem sido o de descobrir, desvendar esse ser.

  • Na busca por este ser, o homem passa a atribuir essências (verdadeiras) a cada fenômeno (ilusório) que observa no mundo. Por exemplo, a essência da sensibilidade é o amor, a da vontade é o bem, a do pensamento é a verdade, etc;

  • Os espectros tornaram esse mundo essencial em realidade, levando o homem cristão aos mais inenarráveis sofrimentos dada a impossibilidade de se anular a contradição corpo-espírito;

  • Com o cristianismo, ou seja, quando a ânsia pelo espírito faz com que ele se torne corpo, o homem se espiritualiza e até seus mais íntimos pensamentos podem estar sob influência de fantasmas, de demônios. O homem cinde-se e passa a guerrear contra si próprio;

  • Como receptáculo do ser superior, um homem só reconhece um outro como tal se vir nele os traços do espírito, os atributos espirituais; nada da individualidade desse homem singular é dessa natureza, somente sua subsunção ao espírito, somente sua adequação à idéia faz dele um Homem;

  • Só o espírito que circula o indivíduo é respeitável. O indivíduo em sua singularidade não deve existir (origem das masmorras, dos hospícios, das prisões e das guilhotinas…);
  • O indivíduo é sempre subsumido por um espírito superior, o familiar, o do povo, da pátria... Somente em função desses ele adquire algum status de importância;
  • Exemplos de espectralidades sagradas: "espítiro santo", verdade, justiça, lei, boa causa, majestade, casamento, bem comum, ordem, pátria.

sábado, 8 de maio de 2010

Contra a tutela… outra tutela

Sessenta anos antes de Max Stirner (e seis anos antes da Revolução Francesa), Kant escreveu: “Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo”.

Max Stirner tem umas tiradas que me surpreendem. O pensador é de uma sagacidade simples que me faz lembrar dos arroubos intelectuais simplórios, mas sólidos, com os quais as crianças às vezes nos colocam em situações delicadas.

Tratando do universo filosófico, ideológico e político da Europa no pós Revolução Francesa, o filósofo me vem com a seguinte análise (interpretação minha): o Estado da burguesia zela por seu ideário; o ideário correto, racional. Só os cientes desse ideário, que o assimilaram de forma consistente podem ocupar os postos de produção e reprodução das idéias, são eles também os encarregados pela censura e seleção do que é ou não é correto, ou seja, racional. Esse ideário correto abrange a universalização da razão e da moral racional, pensante, introjetada feito uma vacina que se dá às massas. Na dinâmica da universalização sistêmica, virulenta da razão como "ideal correto", tudo é assimilado: o feio à arte, a religião e seus sacerdotes ao novo quadro político... A única exigência é a do respeito irrestrito à razão. Os liberais não suportam a “má educação”, logo, não aceitam a autodeterminação, as veleidades individuais, o autodidatismo, etc. No seu zelo pela razão, os liberais querem educar, querem, mais uma vez na história… tutelar.

P.S. Max está postado na metade do século XIX quando escreve “O Único e a Sua Propriedade”, portanto, vê e vive tanto a industrialização galopar, quanto vê (e vive, uma vez que lecionou) o ensino técnico-científico dominar as escolas alemãs, na marcha pela universalização da educação.

Única imagem de Max Stirner (rabiscada por Friedrich Engels)

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Do significado da Revolução Francesa para Max Stirner

Entendo que seria pertinente, nesta segunda postagem, apresentar os autores do Trabalho. Não será possível. Tenho muito o que ler ainda hoje.

Então, por ora, apenas deixarei registrada uma assertiva de Max Stirner, extremamente inovadora, quando comparada ao que comumente se lê por aí acerca da Revolução Francesa. Max vê e prevê a ditadura da burguesia contra o indivíduo singular, “egoísta”, cioso por aquilo que os revolucionários chamarão de privilégios típicos do antigo regime. [deixaremos para um oportuno momento uma reflexão filosófica acerca do termo “privilégio”; o objetivo será o de tentar desnudar os sofismas que se escondem por detrás do referido conceito]

Enfim. Deixemos o alemão falar:

“A Revolução provocou a transformação da monarquia limitada em monarquia absoluta. A partir de agora, todo o direito que não for concedido por este monarca é considerado “usurpação”, e só os privilégios por ele concedidos são “direitos”. Os tempos pediam a monarquia absoluta, e por isso caiu a chamada monarquia absoluta que tão pouco soube ser absoluta, ao deixar-se limitar por milhares de pequenos senhores”.

Comentário meu: A nova monarquia absoluta, solicitada pelo período, deve ser entendida como um novo Espírito… outro conceito interessante de Stirner. Falaremos dele em outro momento.

Para começar, o título e o tema do TCC

Título: "O Único e o Indivíduo: do ‘Eu’ de Max Stirner ao ‘Rebelde’ Michel Onfray”.

Tema: “Uma análise das subjetividades propostas por Michel Onfray e Max Stirner nas obras: ‘A política do rebelde’ e ‘O único e a sua propriedade’ e uma reflexão acerca da pertinência, para a contemporaneidade, de síntese dessas propostas”.